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Da lamparina ao algoritmo: a revolução da inteligência artificial

     Quando a eletricidade começou a surgir como promessa de transformação no século XIX, boa parte do mundo reagiu com desdém. Diziam que era mais fácil continuar com as lamparinas, que o querosene era barato, que fio de cobre era caro e inútil, que não fazia sentido trocar o que já funcionava. As manchetes e os discursos da época soam incrivelmente familiares a quem acompanha hoje o debate sobre a inteligência artificial. É quase o mesmo tom de descrença: “é só uma moda”, “custa caro”, “não tem utilidade prática”, “vai trazer mais problemas do que soluções”. A diferença é que agora, em vez da energia elétrica, falamos da energia cognitiva, uma força que começa a permear a informação e o pensamento da mesma forma que a eletricidade penetrou no mundo físico.






    A história mostra que toda tecnologia de base, no início, é subestimada. Quando Thomas Edison iluminou a primeira rua, muitos acharam que seria apenas um espetáculo urbano; ninguém via ali o embrião de uma infraestrutura que alimentaria fábricas, lares e comunicações. O mesmo acontece com a inteligência artificial: por enquanto, vemos apenas luzes isoladas, um aplicativo que escreve textos, uma ferramenta que cria imagens, um assistente que responde perguntas. Mas o que realmente está se erguendo por baixo é uma nova rede invisível de inteligência, que em breve se tornará tão banal e onipresente quanto a própria energia elétrica. Não falaremos mais em “usar IA”, assim como ninguém diz que está “usando eletricidade” quando acende a luz. Ela simplesmente fará parte de tudo, dissolvida no cotidiano.



    As resistências de ontem são as mesmas de hoje. Os que riram da eletricidade não eram tolos, apenas estavam presos à lógica de seu tempo. Era difícil imaginar um mundo em que o esforço humano seria amplificado por uma força invisível. Hoje, o mesmo se repete: é difícil aceitar que a mente, esse território que parecia exclusivo do humano, possa ser potencializado por algoritmos. Mas negar a inevitabilidade da inteligência artificial é o mesmo que teria sido negar a inevitabilidade da eletricidade. Não se trata de moda, mas de transformação de base. O que a eletricidade fez ao corpo, libertando-o do peso da força física, a IA faz agora à mente, libertando-a de tarefas repetitivas e abrindo espaço para um novo tipo de criatividade e raciocínio.

    Há, é claro, exageros financeiros, promessas infladas, startups sem substância, como houve no início da eletrificação. Empresas nasciam e morriam vendendo lâmpadas, baterias, sistemas improvisados. Muitos perderam dinheiro. Mas o colapso de especulações não destruiu a eletricidade, apenas separou o essencial do supérfluo. O mesmo acontecerá com a inteligência artificial: não é uma bolha, é uma peneira histórica. O que for passageiro vai sumir; o que for estrutural permanecerá e moldará o século.



    A eletricidade mudou a forma como o mundo se movia. A inteligência artificial muda agora a forma como o mundo pensa. Ambas começaram como curiosidades tecnológicas e terminaram como condições de existência. Hoje, quando olhamos uma cidade à noite, não pensamos na revolução que foi acender aquela luz. Um dia, ao interagir com sistemas inteligentes em tudo o que fazemos, também esqueceremos que houve um tempo em que isso parecia impossível ou perigoso. A IA, como a eletricidade, não veio para impressionar, veio para se tornar invisível. E quando se torna invisível, é porque venceu.

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