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Esboço do produto de Hardy–Littlewood — derivação dos fatores locais.

 

Esboço do produto de Hardy–Littlewood — derivação dos fatores locais

Objetivo: justificar heurística que leva ao fator local

Lp  =  1ν(p)/p(11/p)2L_p \;=\; \frac{1-\nu(p)/p}{(1-1/p)^2}

no caso dos primos gêmeos (e, mais geralmente, a fórmula do singular series para kk-tuplas), e mostrar como isso conduz à constante dos primos gêmeos 2C22C_2 em π2(x)2C2Li2(x)\pi_2(x)\sim 2C_2\operatorname{Li}_2(x).

Modelo probabilístico básico

  • Heurística elementar: a probabilidade heurística de um inteiro nn ser primo, para nn grande, é aproximadamente

    P(n eˊ primo)1lnn.\mathbb{P}(n\ \text{é primo}) \approx \frac{1}{\ln n}.
  • Se assumirmos (apenas heurísticamente) independência entre os eventos “nn é primo” e “n+2n+2 é primo”, obteríamos a estimativa ingênua

    P(n, n+2 sa˜o primos)1(lnn)2.\mathbb{P}(n,\ n+2\ \text{são primos}) \approx \frac{1}{(\ln n)^2}.
  • Essa estimativa ignora obstruções locais (módulos pequenos). O produto de Hardy–Littlewood ajusta essa probabilidade multiplicando por fatores locais LpL_p (um para cada primo pp) que compensam as restrições modulares.

Contagem de obstruções modulares para um primo pp

Considere um primo pp. Para que tanto nn quanto n+2n+2 não sejam divisíveis por pp, nn deve evitar um certo conjunto de residúos modulo pp. Seja

Ap  =  {a(modp)  :  ah(modp) para algum deslocamento h{0,2}}.\mathcal{A}_p \;=\; \{ a \pmod p \;:\; a\equiv -h \pmod p \text{ para algum deslocamento } h\in\{0,2\} \}.

Defina ν(p)=Ap\nu(p)=|\mathcal{A}_p| — o número de classes proibidas modulo pp.

  • Para os primos gêmeos (deslocamentos {0,2}\{0,2\}):

    • Se p>2p>2, as congruências n0(modp)n\equiv 0\pmod p e n2(modp)n\equiv -2\pmod p são duas classes distintas, logo ν(p)=2\nu(p)=2.

    • Se p=2p=2, então 222\mid 2 e as duas condições coincidem modulo 22, logo ν(2)=1\nu(2)=1.

A probabilidade (aleatória sobre nn modulo pp) de que nenhum dos dois números seja múltiplo de pp é

Pp(nenhum muˊltiplo de p)  =  1ν(p)p.\mathbb{P}_p(\text{nenhum múltiplo de }p) \;=\; 1 - \frac{\nu(p)}{p}.

Por outro lado, sob o modelo “independência local” sem correção, a probabilidade de que nn não seja múltiplo de pp e n+2n+2 não seja múltiplo de pp seria (11/p)2(1-1/p)^2. Portanto o fator de correção local é a razão:

Lp  =  1ν(p)/p(11/p)2.L_p \;=\; \frac{1-\nu(p)/p}{(1-1/p)^2}.

Cálculo explícito no caso dos primos gêmeos

  • Para p>2p>2: ν(p)=2\nu(p)=2. Assim

    Lp  =  12p(11p)2  =  p2p(p1)2p2  =  p(p2)(p1)2.L_p \;=\; \frac{1-\tfrac{2}{p}}{(1-\tfrac{1}{p})^2} \;=\; \frac{\tfrac{p-2}{p}}{\tfrac{(p-1)^2}{p^2}} \;=\; \frac{p(p-2)}{(p-1)^2}.

    Observe também a identidade alternativa

    p(p2)(p1)2  =  11(p1)2.\frac{p(p-2)}{(p-1)^2} \;=\; 1 - \frac{1}{(p-1)^2}.
  • Para p=2p=2: ν(2)=1\nu(2)=1. Logo

    L2  =  112(112)2  =  1214  =  2.L_2 \;=\; \frac{1-\tfrac{1}{2}}{(1-\tfrac{1}{2})^2} \;=\; \frac{\tfrac{1}{2}}{\tfrac{1}{4}} \;=\; 2.

Multiplicando todos os fatores locais (produto sobre todos os primos pp) obtemos o singular series para o par (0,2)(0,2):

S{0,2}  =  pLp=L2p3p(p2)(p1)2=2p3p(p2)(p1)2.\mathfrak{S}_{\{0,2\}} \;=\; \prod_{p} L_p = L_2 \prod_{p\ge 3} \frac{p(p-2)}{(p-1)^2} = 2\prod_{p\ge 3} \frac{p(p-2)}{(p-1)^2}.

Definindo a constante usual dos “gêmeos” como

C2:=p3p(p2)(p1)2,C_2 := \prod_{p\ge 3} \frac{p(p-2)}{(p-1)^2},

temos o fator total S{0,2}=2C2\mathfrak{S}_{\{0,2\}} = 2 C_2. É desse produto que surge o fator 2C22C_2 na previsão de Hardy–Littlewood

    



π2(x)2C22xdt(lnt)2.\pi_2(x) \sim 2C_2 \int_2^x \frac{dt}{(\ln t)^2}.

(Numericamente C20.6601618C_2\approx 0.6601618, portanto 2C21.32032362C_2\approx 1.3203236.)

Interpretação e convergência do produto

  • Para primos grandes pp, ν(p)\nu(p) é limitada (no caso do par (0,2)(0,2), ν(p)=2\nu(p)=2 para todos p>2p>2), e o fator Lp1L_p\to 1 quando pp\to\infty. A convergência do produto decorre do fato de que

    Lp=1+O ⁣(1p2),L_p = 1 + O\!\Big(\frac{1}{p^2}\Big),

    e p1/p2\sum_p 1/p^2 converge, logo o produto infinito converge (absolutamente).

  • O papel de LpL_p é compensar a diferença entre:

    • a probabilidade real que “nenhum dos membros do tuplo é divisível por pp”, e

    • a probabilidade prescrita pelo modelo independente (11/p)k(1-1/p)^k (no caso k=2k=2).

Generalização: kk-tuplas e o singular series

Sejam offsets H={h1,,hk}\mathcal{H}=\{h_1,\dots,h_k\}. Para um primo pp, defina νH(p)\nu_{\mathcal{H}}(p) o número de classes distintas

{h1,,hk}(modp),\{ -h_1,\dots,-h_k\} \pmod p,

ou seja, quantas classes mod pp tornam algum membro do tuplo múltiplo de pp. O fator local para o tuplo é

Lp(H)  =  1νH(p)/p(11/p)k.L_p(\mathcal{H}) \;=\; \frac{1-\nu_{\mathcal{H}}(p)/p}{(1-1/p)^k}.

O produto

SH  =  pLp(H)\mathfrak{S}_{\mathcal{H}} \;=\; \prod_p L_p(\mathcal{H})

é o singular series associado. A conjectura de Hardy–Littlewood para kk-tuplas diz que, se H\mathcal{H} for admissível (i.e. para todo primo pp temos νH(p)<p\nu_{\mathcal{H}}(p) < p), então

#{nx: n+h1,,n+hk sa˜o todos primos}    SH2xdt(lnt)k.\#\{n\le x:\ n+h_1,\dots,n+h_k\ \text{são todos primos}\} \;\sim\; \mathfrak{S}_{\mathcal{H}} \int_2^x \frac{dt}{(\ln t)^k}.

No caso dos primos gêmeos k=2, H={0,2}k=2,\ \mathcal{H}=\{0,2\}, recuperamos o resultado anterior com S{0,2}=2C2\mathfrak{S}_{\{0,2\}}=2C_2.

Observações sobre a heurística e limites da derivação

  1. Não é uma prova. A dedução usa suposições de tipo probabilístico e independência aproximada entre condições de primalidade para diferentes módulos; essas suposições não são justificadas rigorosamente pelas técnicas atuais — por isso HL permanece conjectura.

  2. Problema da paridade. Métodos de crivo tradicionais têm dificuldades em produzir resultados que mostrem existência de tuplos primos na ordem prevista (parity problem).

  3. Validade empírica. Apesar da ausência de prova, a predição de Hardy–Littlewood (com o singular series) fornece excelentes previsões numéricas para contagens de k-tuplas em larga escala — por isso é a heurística padrão.

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